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Paz temporária
A chuva cai lá fora, encoberta pela noite ela corre pela calha. As gotas caem ritmadas sobre um barril largado no fundo do quintal. Dentro da casa só os restos. Restos de fúria, restos de medo, restos de gente. No ultimo quarto uma mulher com o rosto inchado de choro, mãos trêmulas. Fita o vazio depois de soltar a bíblia, procura alguma coisa. No corredor que leva a sala marcas de luta, marcas de sangue, sujeira, terra e vidro. Na sala, a escuridão e o silêncio, nada se move. A cozinha repete o caos do corredor, o retrato da destruição. No quarto que dá pra rua um menino com seu pijama manchado de sangue assiste a chuva pela janela. Hoje ele se sente um herói. O medo foi substituído por raiva. Aquele que o chama de filho agora é seu maior inimigo. E pela primeira vez o inimigo foi abatido. A monstruosa violência irracional e súbita foi freada, a partir de hoje haverá resistência e sua mãe não será massacrada tão facilmente. O derrotado jaz na sala, bêbado, sujo, ensangüentado e cansado. Acordará como outro homem sem saber bem o que fez, mas perceberá como as coisas mudaram.